domingo, 2 de agosto de 2015

Sobre representação e responsabilidade


Desajeitados, uma legião de adolescentes de todas as idades – alguns já de idade avançada – aumenta o tom de voz exigindo o mundo correto e bem administrado, o mundo em que todo e qualquer conflito resulta da maldade, da leniência e indolência de alguns indivíduos, o mundo em que “basta fazer o correto” para “chegar lá”. No sistema representativo aquela incontornável experiência da negação, do radical confronto com quem quer algo diferente e se dispõe a argumentar por isto, encontra-se mediada por uma infinidade de aparatos; estes adolescentes não sabem viver na negação. Parece-lhes insuportável que seu modo de vida possa não ser a regra. Creio que qualquer reflexão sobre a falência da ideia de representação deve também buscar relacionar alguns dos lugares comuns de nossos dias – “nenhum político presta”, “nenhum partido me representa”, “direita e esquerda é tudo igual” – com a experiência específica de viver sob um regime representativo, em que toda participação política é concentrada na promessa de que bastam algumas decisões, periodicamente agendadas, basta votar.

A representação é problemática não apenas porque é incapaz de se “abrir às demandas da sociedade”. Não me interessa o ponto de vista gerencial, a questão não é ouvir os “administrados” para melhor propor “políticas públicas”. Não que toda administração pretenda ser a-política. Exatamente o contrário. Administrar pode ser uma expressão da face cooperativa do político, em que se reconhece na esfera pública um lugar do comum. Parece-me, entretanto, que a cooperação surge como o anverso da negociação, ambas mergulhadas em um mundo conflituoso e ambas buscando instaurar alguma convivência em um jogo de forças incessante. Não sobram lugares neutros. Nenhum lugar onde se possa tomar decisões apenas “técnicas”. A separação entre normativo e positivo é ela mesma prescritiva e, portanto, política. A questão é, neste sentido, compreender como a representação se traduz em uma experiência privativa (no sentido em que Arendt refletiu), que se transforma na negação mesma da política. Nesta sociedade tornada uma mera “coleção de indivíduos”, as pessoas apenas levam sua vida “como deve ser”, como “fazem todos”: estudar – trabalhar – consumir; casa – trabalho – cinema, shopping, festa, etc. Quase tudo é privado, os equipamentos públicos são essencialmente meios de circulação, o que sobra de comum tende a se tornar lazer (também consumo), talvez a única convivência ainda possível para aqueles apenas capazes de enxergar no outro a ocasião do gozo.

Não se trata de acusar a vacuidade de “nossa vida contemporânea”, mas de perceber uma escolha determinada que o sistema representativo parece sempre propor. Trocamos as dificuldade e incertezas da vida política – quantas vezes você já ouviu “não gosto de política”? –, abrindo mão de qualquer intervenção direta, por uma vida concentrada nos “planos individuais”, nos “projetos de vida”, talvez se diga que trocamos a política por uma criação estética de nós mesmos. Há muitos caminhos a se pensar a partir daqui. Uma estética que reconheça no desejo seu verdadeiro lugar poderá, por exemplo, desestabilizar o projeto individual ao colocar, através pluralidade das pulsões, a impossibilidade mesma da identidade pela qual este indivíduo se constrói. Deleuze tem muito a nos ensinar. De minha parte, gostaria de apenas de apontar para algo mais simples, que é quase uma exortação.

A representação falha porque é incapaz de propor uma noção de responsabilidade que seja comunitária. Não por acaso a verdadeira política flui pelos movimentos sociais, em que aqueles que não se ajustam à política da maioria são empurrados para um tipo novo de solidariedade. Quem vive a negação como uma negação de si mesmo aprendeu muito rápido a se solidarizar e explorar os interstícios do sistema representativo para construir seu espaço. É neles que penso quando falo em responsabilidade – e também, evidentemente, no fato de que a representação nos torna “adolescentes”. Há de fato algo como uma “tomada de consciência”, do que faz parte a construção de uma narrativa coletiva, mas que tem algo mais. Tem a descoberta de que se furtar à política é de algum modo colaborar com o que ela produz de pior. Estudar o mundo em que se vive toma a forma de um imperativo ético. Não basta esbravejar “revolta”. Falar mais alto é uma falácia.


O sistema representativo está falido não apenas como mundo em que os partidos políticos medeiam os interesses reais, ele está, ainda muito mais, como mundo em que se pode ir de casa para o trabalho e depois ao shopping sem se preocupar com as consequências da situação em que se vive. Eu falo em “situação” e isto é central: a responsabilidade é de todos e cada um, mas as coisas “dão errado” não porque somos culpados (ninguém é culpado), mas porque toda ação se desdobra em um contexto hiperdeterminado, no qual nunca se pode dizer com certeza qual é a causa e qual é o efeito.

18/05/2014

Nenhum comentário:

Postar um comentário