O conflito está na
contemplação (atualizado)
Conversando o assunto "Black Blocs" com o amigo Josias no Facebook,
ele me apontou muito corretamente que nós não sabemos do que falamos quando
falamos em conflito. Um dos pressupostos básicos da ontologia, no modo como a entendo,
é que todo enunciado implica uma definição de uma situação, e que portanto
qualquer gesto enunciativo, por mais banal, forma hipóteses sobre o mundo como
um todo. Portanto definir o que é conflito implica definir o que é uma situação
conflituosa que implica definir quem está em conflito. E foi isto o que eu
tentei fazer aqui. Esta forma de exposição visa facilitar a refutação. Qualquer
dos enunciados pode ser atacado com qualquer exemplo ou argumento de qualquer
área do saber. Se uma definição ontológica é "sui generis", ou seja,
se ela vale pra um pedaço de mundo, mas não serve em outro, então ela está
equivocada e precisa de revisão.
1.
Atores são montagens complexas de outros atores
1.1. Cada
montagem é definida por uma série de relações
2.
Atores são centros performáticos de ação
2.1.
“Características” são um efeito das relações
3.
Um ator só possui unidade porque é tratado por outros atores como uma unidade
3.1. Ator é
um conceito funcional: ser é ser-tratado
3.2. Em
geral, um ator percebe outro como um exterior sem interior (uma caixa-preta)
3.2.1. Há desmontagens,
caixas-pretas podem ser abertas, como quando elétrons são retirados de alguma
molécula, ou quando há cooptação de indivíduos de um grupo político inimigo, ou
quando o algodão entra em combustão, etc.; qualquer redução é um caso de
desmontagem, mas elas possuem um limite atômico, elas não podem ultrapassar de
fato a menor unidade de real, que em verdade é nada além de uma “unidade de
devir” (uma entidade atual). Analiticamente, entretanto, o devir pode ser
indefinidamente dividido em unidades ainda menores (preensões, ou capturas)
4.
Qualquer montagem é provisória e problemática. Ela só pode se manter enquanto
cada ator for capaz de sustentar as demais montagens de que ele próprio é feito
4.1. Cada
série de relações perfaz um sistema de alianças, que inclui tanto quanto
exclui, constrói tanto quando destrói – o que fica de fora também determina e é
parte de um ator
4.2. Um ator
só pode permanecer estável, só pode durar, enquanto for capaz de impor
conformação ao seu sistema de alianças
4.3. Não há
solução nem síntese para o que foi excluído. Ele não pode ser aniquilado de uma
vez por todas e eventualmente poderá ser cooptado para uma nova montagem. Um
ator é um sistema tênue e instável, pois carrega em si também possibilidades de
dissolução
5.
Uma situação é feita de sobreposições e incomunicabilidade, pois cada ator age
em seu respectivo passado contemplando expectativas nos outros atores, que por
sua vez agem cada um em seus próprios passados.
5.1. Passado
e futuro, não menos que situação e mundo atual, são dêiticos, são conceitos
indexais que mudam conforma a perspectiva
6.
Quando dois atores se contemplam há sempre muito mais do que cada um pode
contemplar, por três razões:
6.1.
Inacessibilidade do outro, que apenas pode entrar em relação na medida em
que é capaz de capturar suas montagens
6.2. Cada
ator é ele próprio montado, ele é também efeito de outros atores, que ele
considera funcionalmente. Cada ator estabelece seu sistema de alianças por
sobre um fundo de ignorância de seus aliados
6.2.1. Assim qualquer
humano é aliado de seus órgãos internos, os quais podem ser eventualmente
tratados como um ator unitário (quando por exemplo transplanta-se um órgão, ou
se discute sobre ele) ou como um sistema de atores (como o fígado é tratado
pelos demais órgãos), mas o fundamental é que a ação é baseada em uma
expectativa em relação a cada órgão, e esta ação é levada na mais absoluta
ignorância sobre o que se passa “dentro” de cada um. Quando dois políticos
estabelecem um acordo, eles não estão interessados no que cada um deles terá
que impor a sua “base aliada” para que o acordo se mantenha, o que importa é
que ele se mantenha
6.3. Como
cada ator é uma multiplicidade e eles são centros performáticos (são o lugar ao
qual se atribui a ação) e não centros de controle (nenhum ator é transparente a
si mesmo), é razoável afirmar que a contemplação mútua de dois atores é ela
própria também múltipla, ali se encontram não apenas as expectativas mais
imediatas de um em relação ao outro, mas também toda a série de alianças que
sustém cada um. A contemplação coloca em jogo todas as possibilidades, mesmo
aquelas que um ator esperava permanecerem silenciadas e negadas
6.3.1. Qualquer
negociação é por definição arriscada, pois pode ser que seu resultado imponha
aos atores movimentos disruptivos de sua base aliada, que se libertem
possibilidades inauditas, que o próprio ator venha a experimentar uma
transformação tão radical que já não possamos identifica-lo posteriormente
7. O
conflito está na contemplação
7.1.
Gostaria de identificar a noção de conflito não com o gesto do confronto,
mas com a contemplação de possibilidades contraditórias. Há conflito quando dois
ou mais atores se contemplam e buscam, um no outro, alianças que negam em algum
grau a estabilidade de cada um
7.1.1. O óbvio exemplo é
a contradição entre capital e trabalho. Precisamente porque o ator capitalista
se determina através de um sistema de alianças que inclui a propriedade privada
dos meios de produção e este sistema inclui os bens de capital (inclui as
coisas), que também fazem parte de um outro sistema, o do trabalhador
produzindo valor. Trabalhador e capitalista contemplam um no outro, através de
um dos termos de aliança – uma coisa – possibilidades que poderiam romper as
condições de persistência
7.1.1.1.
As possibilidades de rompimento da estrutura
capitalista são possibilidades incrustadas nas próprias coisas
7.1.2. Poderíamos pensar
em exemplos menos radicais. Há conflito quando o setor exportador contempla no
produtor interno oportunidade para ampliação do lucro e produtor interno
contempla no setor exportador fonte de divisas para a ampliação da
produtividade. O câmbio é a materialidade do conflito. Há algum conflito também
nas funções de nutrição de qualquer animal. Ele contempla no alimento nada além
da saciedade, o alimento será destruído em sua forma atual, mas suas peças
contemplam no animal novas formas de aliança
7.2. Nem
todo conflito redunda em confronto
7.2.1. Enquanto há
contemplação, há sempre convivência de possibilidades contraditórias; e quando
houver o confronto efetivo muito disto se tornará impossível
7.2.2. O confronto impõe
uma situação irresistível aos atores. Todo ator entra em “economia de guerra”
quando se encontra em confronto. O que significa que ele entra em um regime de
conformação mais rígido em relação a seus aliados (pode ceder muito menos
espaço a cada um). No confronto os atores se solidificam, passam a mover-se com
mais dificuldade, mas também tornam-se muito mais custosos e resistentes aos
demais atores
7.2.3. A negociação
torna-se um processo mais limitado após o confronto, precisamente porque ele
impõe na situação um “núcleo duro” que não pode ser negociado sem a eliminação
do ator com ele comprometido
7.2.3.1. Dois “predadores
dominantes” não podem, após um confronto violento, permanecerem no mesmo espaço
sem que um cesse de ser ou predador ou dominante. Uma classe revolucionária não
pode permanecer sendo revolucionária após uma revolução frustrada – seu núcleo
duro é o que será eliminado (os líderes, os ideais, os objetivos). Poderá haver
uma nova classe revolucionária, mas ela será nova, nunca a mesma. Somos nós
quem a tratamos como um mesmo (é a relação analítica que estabelecemos com as
classes trabalhadoras que nos faz falar em “classe trabalhadora”), mas ela só
pode ser o que é entrando em muitas outras relações (cada uma de cada um dos
trabalhadores que a compõe, por exemplo), que reduzimos (fazemos caixa-preta)
para fazer funcionar a análise
7.3. O
confronto torna a situação muito mais impositiva, mais urgente e irrenunciável;
nele os atores experimentam possibilidades de aliança que requerem na situação
algo de insuportável (porque contraditório) para outros atores
7.3.1. Porque compromete
um ator com um experimento de possibilidades, porque solidifica o ator em um
cenário de possibilidades, ele reduz a situação contemplada no conflito
7.3.2. Não se pode
aplicar um raciocínio quantitativo, entretanto. O conflito não é mais rico que
o confronto:
7.3.2.1. Situação 1: há
conflito, mas não confronto. Neste cenário há possibilidades contraditórias dos
dois lados, mas como não se busca atualizá-las a situação permanece naquelas em
que o confronto é evitado, ou seja, enquanto o confronto for evitado, a
situação permanecerá naquelas possibilidades em que isto é possível
7.3.2.2. Situação 2: há
confronto. Neste cenário os atores se comprometem com possibilidades
contraditórias, que implicam mútua destruição
7.3.2.3. Uma vez que as
“possibilidades não contraditórias” são um subconjunto de “todas as
possibilidades”, supõe-se corretamente que a situação 1 é mais rica, ou seja,
possui mais possibilidades que a situação 2
7.3.2.4. Mas riqueza tem
a ver com novidade, com imprevisibilidade, não com quantidade. Seria preciso
apelar a um raciocínio probabilístico, que não pode ser aplicado se não for
possível quantificar as possibilidades (por exemplo, a cada vez que lançamos um
dado há 1 em 6 chances de que que saia o número 4; sem saber o total de
combinações possíveis seria matematicamente incorreto falar em probabilidade).
Conforme a apropriação que Meillassoux faz do teorema de Cantor, uma
“totalidade do pensável é impensável”. Não se pode contar, sem cair em
contradição, o conjunto de todas as possibilidades (nem mesmo das não
contraditórias) para determinar as probabilidades de cada uma
Post-scriptum metateórico
É central que a concepção
de ontologia empregada no texto seja corretamente compreendida, do contrário
pode-se tomar este esforço de forma equivocada, como apenas uma definição geral
pra ser aplicada em casos particulares, uma espécie de "afiar as
ferramentas". Isto não está dito, não me atentei para esta necessidade,
que a objeção levantada pelo José F. me chamou a atenção. Na resposta eu disse
que "não se trata de conquistar precisão (em sentido epistemológico), mas
mobilidade (em sentido especulativo). Trata-se de elaborar conceitos que
transitem fluidamente em casos concretos, não definindo-os, mas sendo por eles
definidos". Quando falo em ontologia entendo estar falando de definição no
sentido clássico de "Sujeito é predicado", e inclusive entendo que a
realização da adequação própria à forma enunciado seja a melhor expressão do
que se entende por verdade. O que acontece é que não entendo o sentido de
"ser" no interior da proposição como uma "posição", mas
como uma ação, um processo de conquistar ser: "Sujeito devém
predicado". A verdade não é uma adequação a um estado de coisas
simplesmente dado, antes de qualquer fazer adequar. O mundo atual é um antes e
outro depois da enunciação. Adequação é uma convergência de trajetórias:
aquelas do sujeito, aquelas do predicado e aquelas de tudo o mais que envolve a
compreensão do enunciado. Isto é fundamental. A estrutura básica da ontologia
está mesmo na lógica, a verdade está na proposição, mas a proposição não é o
dado, ela precisa ser feita, negociada, aliançada ao real. Pode continuar
falando em sujeito e objeto, não tem problema. Apenas os penso como
desinteressantes. O que interessa é o que ocorre entre sujeito e objeto, acima,
dos lados, o que ambos ignoram, o que os atravessa, o processo mesmo do devir
"sujeito-objeto", o que excede, não o que medeia sujeito-objeto. Os
dois pólos da relação epistemológica são meramente ilusões objetivas (pra usar
uma expressão de Deleuze), coagulações momentâneas do devir.
Post-scriptum teórico:
Acho que Jose F. ofereceu
uma excelente indicação para compreendermos o que é, não apenas onde está, o
conflito: "Definiria o conflito do ponto de vista histórico como
desagregação - a noção de desagregação (pode) configurar cenários adequados ao
trato com a específica relação-conflito. Se tais cenários permitirem realizar a
desagregação, a desmontagem, da relação-conflito, se tem o confronto como
fenômeno. Qual seria a vantagem de se propor uma definição de conflito através
da noção de desagregação? Evitaria a fetichização dos atores, um dos riscos
(possibilidades) que o conflito porta. O conflito não pertence aos seus atores,
mas à desagregação que eles podem oferecer aos sistemas com os quais se
relacionam - sejam eles mesmos, sejam os outros, as coisas, etc. O item 6.3
critica explicitamente tal fetichização".
Seria o caso de
diferenciar "desagregação" e "desmontagem"? Esta seria
minha primeira dúvida. O conflito coloca de forma incisiva as indecisões da
relação todo-partes. Entendo que o todo é resultado causal não-linear de suas
partes. O que quer dizer: 1) Sem partes não há todo; 2) O todo é autônomo às
partes, pois possui uma criatividade e uma ação próprias. Pode-se criticar que
pretendo os dois lados da equação (junk vs. gunk; atômico vs. contínuo), que
quero manter a harmonia do todo com a interação intempestiva das partes, mas
entendo que há uma confusão referente ao conceito de causa quando se opõem
todos e partes. Não é preciso que o todo preceda às partes para que ele possua
relações autônomas (como qualquer ator), nem é preciso que as partes produzam
cada um dos aspectos do todo para que se passa falar em dependência do todo em
relação às partes. Basta que se fale em limiares, em concentrações
imprevisíveis e históricas de possibilidades. Não podemos saber previamente
como vai se comportar o que vamos montar com estas partes. Não por uma falha no
nosso conhecimento, mas porque o encontro das partes, a montagem ele mesma,
produz resultados imprevisíveis e desconexos no real. Em t1 deparamo-nos com as
partes p1, p2, p3, p...(n), em t2 encontramos um todo x. Sempre que as mesmas
condições de t1 se derem, encontraremos x? As mesmas condições iniciais
produzem o mesmo resultado? Se pudéssemos voltar no tempo a 13 de julho de 1789
(de modo perfeito, cada uma das menores condições do universo inteiro sendo
idênticas), no dia seguinte a Bastilha seria necessariamente tomada? Creio que
não. E aqui está tanto a não-linearidade do mundo atômico, quanto a
continuidade produzida pelas montagens. O mesmo pensamento (a mesma ideia,
conceito, o mesmo noema) surge a cada vez de conexões neuroniais muito
diferentes, assim como as mesmas conexões neuroniais não redundam
necessariamente nos mesmos pensamentos. Não há pensamento sem cérebro, mas o
mesmo cérebro, nas mesmas condições iniciais, pode fazer ser muitos pensamentos
diferentes. No lugar de procurar um fantasma na máquina, prefiro explicar a
autonomia dos pensamentos através da causalidade não-linear, que penso poder
ser generalizada na ontologia, mas que é um fenômeno físico.
A desagregação entretanto
seria muito mais exigente - o que é excelente, uma vez que se trata de
conflitos e confrontos. Ela impõe pensar a base aliada de um ator como um
agregado, o que é uma imagem bastante acurada para fazer ver a ignorância que
acomete cada ator com respeito às suas dependências do mundo atual. Um agregado
é muito menos harmônico que uma montagem, muito mais desacomodado. Não acho que
se trate de coisas diferentes, mas de duas formas de acentuar a constituição
ontológica dos atores. Uma (a montagem) acentua a ação coerente (que conforma a
base) e outra (a agregação) acentua a problematicidade, o fato de que cada uma
das partes de um ator é parte e possui partes de outros atores, que também o
agregado possui uma base aliada com heterogeneidades outras, as quais também
têm que ser negociadas. Não seria interessante diferenciar agregados e
montagens previamente aos confrontos atuais, são as situações concretas nas
quais se metem os atores que decidem o que ele é predominantemente.
Por fim, então,
acrescentaria um novo item:
8. O conflito contemplado
é a iminência da desagregação.
8.1 A
desagregação se efetiva no confronto, onde os atores são forçados a jogar suas
alianças e a comprometer suas trajetórias históricas constitutivas.
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