
Não estou entre os que consideram que a linguagem desvia a referência em direção à teia significativa. Quero dizer, se conversamos sobre um copo, conversamos sobre um isto aí, uma coisa que toma parte em nossa conversa e pode se impor, se retrair, se mostrar...
Podemos falar sobre copos. Posso te explicar sobre a composição química dele, ou sobre sua excelente feitura no que se refere a guardar líquidos alcóolicos e espumantes. Enquanto bebemos e conversamos creio que eu possa entender o que você me diz, no sentido exato em que você atribui às palavras; se eu me esforçar posso também entender a emoção que você atraibui a cada uma delas. Em alguns momentos não poderemos ser precisos, mas isto é um efeito de nosso estar no real, é uma característica do real não ser preciso em alguns momentos, este não é um problelma de linguagem.
E no entanto nunca poderemos nos entender. O opaco está no "nos", no "ter que ser si mesmo", na irrenunciabilidade deste eu que me deram e que eu não posso não fazer alguma coisa com ele. Heidegger possuía uma palavra muito bonita para mostrar isto, era jeweiligkeit, nela podemos escutar tanto um demorar-se (weilen) em dado lugar, em um instante, quanto o respectivo (je), o "a cada vez". Difícil traduzir, algunas falam em "respectividade", em inglês às vezes se diz tarry for a while. Importa dizer o sentido meramente formal deste "ser a cada vez si mesmo": falamos de uma situação na qual nos encontramos, situação sem fundamento, sem razão de ser, que precede o que quer que façamos na situação. O "si-mesmo" é como que o fardo a ser suportado por cada um em cada uma das situações particulares que possam existir. Não sei dizer o que é viver, o que fazer da vida, mas posso dizer que, seja o que for a resposta, ela se dirá de um si-mesmo enredado em um viver.
Insisto em que não se explique a respectividade, que não se a desformalize, que se recuse qualquer conteúdo possível como definição. De certo modo isto quer dizer que nada do que façamos na vida poderá oferecer um conteúdo garantidor, um porto seguro, uma casa mais que um lugar pra se deixar estar por um pouco - Heidegger também falava em Aufenthalt, uma estadia, sojourn. O formal é como que um espectro a nos arrastar para uma destotalização, uma desidentificação, para a impossibilidade de ser tendo que ser a cada vez.
O que é preciso para que nos entendamos? É preciso uma promessa. Um compromisso de fazer o tempo futuro ser construído em determinada direção, uma em que nossos si-mesmos - entenda, não nossos "eus", mas nossos respectivos "estar-situados", a partir do qual pode-se fazer algo como um eu - sempre permitam espaço e abertura necessárias para um diálogo aberto e atento. É o mínimo, mas já é impossível o suficiente, por mais que queiramos. Mas é uma impossibilidade factual, pois a estrutura formal da situação perfaz trajetórias radicalmente distintas e mesmo contraditórias; não há nada na vida "em si mesmo" que nos impossibilite a comunicação. É o modo como a vida faz o seu em si a cada vez que nos conduz à falência do entendimento; eterno retorno do mesmo.
20/09/2013
Nenhum comentário:
Postar um comentário