sábado, 14 de novembro de 2015

Formação ecológica e a queda do céu


"Assim é. Os xapiri nos protegem contra todas as coisas ruins: a escuridão, a fome e a doença. Afastam-nos e combatem-nas sem descanso. Se não fizessem esse trabalho, nós daríamos dó! O vendaval, os raios e a chuva não nos deixariam um momento de trégua; a cheia dos rios inundaria a floresta continuamente. Ela ficaria infestada de cobras, escorpiões e onças, invadida pelos seres maléficos das epidemias. A noite envolveria tudo. Teríamos de ficar escondidos em nossas casas, esfomeados e apavorados. Começaríamos, então, a virar outros, e o céu acabaria caindo novamente" (KOPENAWA, p, 216).

Não se trata de ocasionalismo. Os xapiri não são deuses, não intervêm em tudo o que acontece no mundo. Pelo contrário, intervêm de modo quase caprichoso. Apenas quando apropriadamente incitados, ou quando se interessam em fazer algo. A proteção que os xapiri proveem não interfere na regime de causalidade do mundo, eles habitam o mundo, funcionam no mundo.

Não se trata de antropomorfismo. Nada mais distante, aliás. O "humano" não pertence aos agentes que comumente respondem pelo "nós". A "humância" circula na floresta, não como um espectro, mas como uma disposição, uma relação. Os xapiri também não são propriamente humanos, embora eventualmente se pareçam e instaurem "características" tidas por humanas. Eles possuem um corpo, embora possuam, isto sim, uma corporalidade de espectro, de imagem.

A acusação de antropomorfismo, entretanto, é menos generosa. Ela na verdade gostaria de apontar Kopenawa como exemplificando aquele tipo de "infância" da humanidade, que "nos" fazia ver no mundo ao nosso redor coisas que eram projeções de nossa cabeça. Aquela infância pré-crítica, de realistas ingênuos, da qual agora orgulhosamente já "nos" livramos. Contra isto é provável que a melhor resposta seja o sorriso. O xamã é aquele que habita o entre, que só pode dizer o que diz porque se torna outro. Longe de ser um encontro consigo mesmo, com um sujeito autocentrado a personificar o mundo, aqui se trata de uma sensibilização para o desigual.

A formação xamânica (descrita no capítulo 6 de A Queda do Céu) é uma educação da experiência. Uma sensibilização para a fragilidade da ordem. À diferença do "branco", que toma por certo - contra todas as advertências céticas - que o céu nascerá amanhã, seja como for, o índio é aquele que sabe que "nada garante que". O mundo branco é formado por conexões objetivas ("universais e necessárias", chame de Lei, se quiser), o mundo do índio por conexões subjetivas. Mas sujeito não é restrito ao humano (quem é o antropomórfico, afinal?), antes, o humano é um caso específico de sujeição. O mundo se experiencia, mas mundo é muita gente. Não é um organismo único (uma substância spinoziana), talvez se possa dizer que é feito de íntimas conexões, frágeis como teias de aranha (que Kopenawa compara aos espelhos dos xapiri), a conetar cada um destes centros performáticos da experiência.

Kant inicia sua lógica nos dizendo que toda a natureza não passa de um nexo de aparências de acordo com regras. Sem elas, não haveria nada. O que Kopenawa nos lembra é que mesmo as regras precisam ser re-instanciadas a cada instante. Elas não se sustentam como que por mágica (quem está na infância pré-crítica, afinal?) e nem são garantidas por um demiurgo. Se a ordem não for re-feita, o mundo apodrece, as estacas que sustentam o céu derruem e ele cai. Assim já foi uma vez, assim será novamente. Formação ecológica talvez seja a compreensão disto. Não apenas da fragilidade da ordem, mas da contingência da ordem: o que é, poderia não ser. A Terra pode até ter sido preparada para humanos, mas ela nunca deixou de incluir em si a multidão de Terras-não-humanas, à espreita de atualização.

2 comentários:

  1. Poxa interessante, "se a ordem não for re-feita o mundo apodrece", o que é poderia não ser, é uma coisa tão clara e óbvia mas tão esquecida pela ordem social, é como se as coisas tivessem se estabelecido no eterno. É isto que o indigenas fazem? de certo modo uma atualização da natureza?

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    1. Isto, toda floresta está como que num regime de contingência. O interessante não é que uma ação supostamente humana interfira num não-humano, como mais ou menos acontece no misticismo astrológico, é que não existe o lugar "seguro", separado do resto do mundo. Não da pra saber antes da ação o que conta como relevante pro caso específico. É como se cada lance de dados recomeçasse um mundo inteiro consigo.

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