domingo, 6 de dezembro de 2015
On Dolphin's social cognition
"Intercepted echolocation data could generate objects that are experienced in more nearly the same way by different individuals than ever occurs in communal human experiences when we are passive observers of the same external environment. Since the data are in the auditory domain the 'objects' that they generate would be as real as human seen-objects rather than heard-'objects', that are so difficult for us to imagine. They could be vivid natural objects in a dolphin's world" (Jerison).
"The
traditional scientific assumption that animals are automata devoid of
consciousness is now outdated and the "precautionary principle"
borrowed from environmental law should be adopted. As interpreted to
apply to animals, we should assume animals do have consciousness in
case they do; if they do not it does not matter" (Bradshaw).
Minding animals
Hoje
deparei-me com essa linda expressão num texto do Bekoff:
"When
I study animals I try to "mind" them. Basically, the phrase
"minding animals" means two things. First, it refers to
caring for other animals beings, respecting them for who they are,
appreciating their own world views, and wondering what and how they
feel and why. Second, it refers to the fact that many animals have
very active and thoughtful minds" (p. 462, A communion of
Subjects: Animals in Religion Science and Ethics).
Traduzir
“minding animals” não é uma tarefa simples. É mesmo uma
daquelas expressões de fronteira, nas quais você encontra tudo o
que está em jogo num problema. No sentido mais trivial, ele parece
apenas dizer: “Para investigar a mente dos animais é preciso se
importar com eles”. Mas “importar-se” é uma noção tão
vaga, tão gasta! Importamo-nos com tanta coisa com as quais na
verdade não nos importamos!
Sendo
um deep-ecologist, é provável que Bekoff coloque um maior peso na
noção de “cuidar pelo ser dos outros animais”. Só posso
compreender a mente dos animais se consigo me engajar em uma atitude
que conjugue um desejar saber (to wonder) ao cuidar pelo ser do
animal; um atitude que se permita cativar, que se permita maravilhar (to be amazed). Como se compreender o animal demandasse uma conversão do
sujeito de todo distinta da atitude científica tradicional,
desinteressada e distante.
Não
basta colecionar dados a partir de experimentos controlados – o que
Bekoff não apenas faz ele mesmo (ele é também um cientista “tradicional”
neste sentido”) como nos apresenta uma série de outros
experimentos. É preciso mais. É preciso ser capaz de ver estes
dados como um meio, uma “porta de acesso”, para a experiência
animal. Um acesso direto à experiência, mediado por esta conversão subjetiva à atitude de minding animals, que emerge dos dados experimentais, mas vai além deles.
Minding
animals é um exercício de devir-outro: “Quando eu observo
animais eu devenho coiote, devenho pinguim (também devenho
árvore, e frequentemente devenho uma pedra). Eu nomeio meus amigos
animais e tento adentrar em seus mundos sensorial e motor para sentir
como eles poderiam ser, como eles sentem seu entorno, e como eles se
movimentam e se comportam em certas situações. Os mundos dos outros
animais estão carregados de mágica e surpresa”.
Exercício
imaginativo, que algum cientista se apressaria por denunciar como
deslocado, inapropriado, injustificado: "subjetivo"; que algum
filósofo talvez chame pré-crítico, "ingênuo": “é óbvio”, ele diria, “que o mundo do animal
é inacessível, que aqui não se faz mais que projetar as categorias
humanas por sobre os animais, não passando, portanto, de
antropomorfismo”. Ao que Bekoff responderia, resolutamente, que
sim, é exatamente disto que se trata. Um antropomorfismo
como recurso metodológico, que faz andar uma aproximação, uma
espécie de afinação do equipamento experiencial do sujeito
(observador) ao de outro sujeito (observado), que faz convergir o
papel de “vedor” (aquele que vê, see-er) e o “visto”
(seen).
Convergir,
não coincidir, dado que se trata de um devir-outro que não apaga o
hiato, a diferença intersubjetiva. Como se animais humanos e
não-humanos fossem instrumentos musicais distintos que se tratasse
de afinar. Eventualmente eles podem executar notas idênticas, eles
vibram juntos, mas por percursos vibratórios totalmente distintos. O
exercício imaginativo próprio à compreensão dos animais demanda
um conhecimento objetivo (dados científicos) sobre o que conta como
relevante na experiência deste ou daquele animal. Os dados,
entretanto, são fragmentários. Eles informam sobre como determinada
espécie ou população reage a determinadas alterações no
ambiente, sua capacidade de aprendizagem, suas práticas
reprodutivas, sua fisiologia nervosa, sua bioquímica, etc. O dado
científico é objetivo, ou seja, ele toma como objeto algo num
sujeito. Mas isto ainda não é compreensão. Apenas quando se for
capaz de integrar estes fragmentos num todo com experiência própria,
um sujeito, é que se poderá falar de minding.
Em
certo sentido, minding animals é um esforço de expansão da
hermenêutica, que recusa o abismo ontológico humanos/não-humanos
em que ela foi tradicionalmente confinada. Mas não me agrada esta
forma de colocar a questão. Parece-me que o problema não meramente
expande um dado esquema de pensamento de que já dispomos. Ele, muito
mais, o extrapola. A questão não é tanto de sentido, quanto de
experiência. Como a experiência intersubjetiva do outro, com quem
não disponho de uma comunidade ontológica já constituída,
interpela-me e me propõe uma nova constituição de mim mesmo como
sujeito? Como eu devenho outro sujeito do que eu era por meio de uma
experiência intersubjetiva? O animal coloca em questão não apenas
meu esquema categorial, mas meu próprio arranjo subjetivo. Desde sua
inacessibilidade, ele não fala a meu esquema e ainda assim me
interpela.
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